quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Mensalão deprime a posição de Lula e abre espaço a Dilma

Entre os efeitos do julgamento, a presidente muda o critério para a escolha de candidatos ao Supremo e pode barrar o ministro da Justiça por causa dos mensaleiros
 
Fotos: Jornal Opção
Deputado petista João Paulo Cunha: condenado pelo STF com 
acachapante placar de nove votos a dois, é o primeiro réu com o 
carimbo oficial de mensaleiro

A.C. Scartezini

O acachapante placar de nove votos contra dois na condenação do de­putado paulista João Paulo Cunha pelo Supremo Tri­bunal Federal provoca uma série de efeitos colaterais que começa pelo desapontamento do PT do ex-presidente Lula, que confiou no domínio dos cinco votos da geração mensalão, formada por ministros nomeados depois da eclosão do escândalo. Entre os cinco, na hora do vamos ver contou com apenas dois para absolver Cunha, o revisor Ricardo Lewandowski e o fiel Dias Toffoli.
Criemos o Índice de Re­tri­buição ao PT (IRPT) para medir o grau da gratidão ao governo dos ministros nomeados sob a era Lula-Dilma Rousseff, que inclui Cezar Peluso, Ayres Britto e Jo­aquim Barbosa. Portanto, estavam em atividade oito ministros vindos da era petista. Entre os cinco da geração mensalão, o IRPT foi de 40% quanto a Cunha. No bolo dos oito, cai para 25%. Entre os três ministros pré-Lula, o IRPT seria zero, não haveria gratidão.
Aqueles dois que são realmente os únicos gratos ao Planalto, Lewandowski e Toffoli estão numa situação incômoda. Como é que nove colegas votaram de um jeito e os dois de outro? Os nove estavam errados? Ao absolverem Cunha, eles, por lógica, inocentaram também o publicitário Marcos Valério e os sócios Cristiano Paz e Ramon Hollerbach. Se as relações do de­putado com os publicitários eram inocentes, os três também o se­riam. Quanto ao desvio de dinheiro público, os dois ministros puderam culpar os três porque Cunha não estava em jogo.
Agora, cabe ao PT evitar que ambos continuem sozinhos ao longo do julgamento de políticos petistas depois que Rosa Weber, Luiz Fux e Cármen Lúcia se desgarraram e culparam Cunha por corrupção. Se Lewandowski e Toffoli concordaram que houve desvio de dinheiro público, como aqueles R$ 73,8 milhões surrupiados ao Banco do Brasil, cai o argumento de que a grana era pa­ra a formação de caixa 2 para partidos, um deslize ético considerado menor?

Efeitos colaterais incluem também o ex-ministro Zé Dirceu

Nesse contexto no Supremo, mais à frente o julgamento terá um encontro marcado para acerto de contas com o ex-ministro José Dirceu, o “chefe da quadrilha”, segundo a denúncia da Pro­cu­radoria-Geral da República. Antes devem estar em causa o ex-deputado José Genoíno e Delúbio Soares. Ambos, presidente e tesoureiro do PT na época. Com o efeito Cunha, os destinos de Dirceu, Genoíno e Delúbio se entrelaçam. Com eles, o governo e o PT.
Outro efeito colateral é com a presidente Dilma Rousseff. Ela simula distância em relação ao mensalão e o julgamento, mas age em sintonia com o que se passa no Supremo. Por cautela, Dilma colocou no ostracismo a Comissão de Ética do governo e que funciona dentro da Presidência. A comissão é autônoma, mas não pode trabalhar porque venceram os mandatos de cinco conselheiros e a presidente não tem pressa.
Dilma não tem a mínima simpatia pela autonomia da comissão, que decide penalidades à equipe do governo sem comunicar previamente à presidente. Por isso, em­purra com a barriga o preenchimento das vagas enquanto o julgamento do mensalão desperta a a­tenção geral para a questão ética no aparelho do Estado. Além disso, não é que a comissão ousou aplicar a pena de advertência ao ministro número um no peito de Dilma, Fernando Pimentel (Desen­vol­vimento)? Ele é acusado de prestar consultoria suspeita à Federação das Indústrias de Minas.

Novo sistema de escolha no Supremo

No início, Lula preencheu as vagas que se abriam no Su­premo com olhos na afinidade entre os candidatos e o PT. Com a eclosão do mensalão, recolheu-se ao um círculo me­nor para consultas que envolviam o comportamento do ministro quanto ao julgamento. Assim veio Ricardo Lewan-dowski, uma opção doméstica. Zé Dirceu, com as barbas de molho, passou a dar palpites. Lula pedia nomes aos ex-ministros Nelson Jobim e Márcio Thomaz Bastos.
Na era Dilma, reduziu-se o nível de compromisso com o mensalão. Agora, altera radicalmente o processo de seleção de nomes diante das duas vagas a serem preenchidas até o fim do ano. A primeira com a saída de Cezar Peluso e a seguir, Ayres Britto. A presidente não tem pressa. Tende a preferir esperar pelo fim do julgamento do mensalão. Enquanto isso, entrega a seleção de candidatos a um gru­po que, com toda a discrição, examina currículos.
Há uma pressão no Planalto para que nomeie à primeira vaga, a de Peluso, o advogado-geral da União, Luís Adams. Mas o processo de recrutamento é tão discreto que não se pode avaliar se a pressão ajuda ou prejudica o candidato. Outro nome mencionado é o do ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo. O problema dele é que a nomeação evocaria a relação que possui com o mensalão, a agência de Marcos Valério e o desvio do Banco do Brasil.
Agora mesmo, na quinta, o presidente do Supremo, Ayres Brit­to,comunicou ao plenário, que um projeto foi alterado no Congresso para proteger mensaleiros. “É um atentado veemente, desabrido, escancarado à Cons­tituição”, assim classificou a uma lei sancionada por Lula em 2010. É a lei sobre a publicidade do governo que permitiu a Valério não pagar o bônus de R$ 2,9 milhões a que o Banco do Brasil tinha direito como anunciante. O dinheiro foi para o mensalão. O projeto era de Cardozo quando deputado. Ele participou da mu­dança no texto.

Como efeito positivo, Dilma ganha mais espaço no governo


O Planalto e o PT operam o governo como uma espécie de condomínio entre a presidente e Lula, o padrinho que se enfraquece com a condenação do Supremo ao seu governo. Como o ex temia, compromete-se a imagem histórica de sua administração. A era Lula ingressa na história de uma forma inédita, a de governo que usou dinheiro público para comprar apoio no Congresso.
Se Lula cultivou a ideia de se tornar um líder mundial, um conciliador ou mediador entre potências, fica com o consolo de que a compra de apoio oferece matéria inédita para um estudo de caso entre acadêmicos e políticos interessados em operação de governo. Os títulos e honrarias que pediu a universidades no primeiro semestre que fiquem, agora, como homenagens antecipadas pelas oportunidades de estudo político e psicológico que se abre à academia.
Em matéria de sociologia e psicologia políticas e eleitorais, a obra envolve um presidente que, no início, negou a existência da­quele negócio no governo. De­pois, admitiu o desvio pragmático e se declarou traído — nunca dis­se quem o traiu. A seguir, considerou aquela arrecadação de fundos uma operação de caixa 2, corriqueira em nossos costumes. Mais tarde voltou a negar tudo. Entre uma declaração e outra, ten­tou peitar um ministro do Su­premo, Gilmar Mendes.
No vácuo aberto pelo padrinho, Dilma, cuja imagem pessoal e institucional não se confunde com o mensalão, pode, se quiser, exercer sua nova autonomia para expandir sua presença no partido. Teria, porém, que se enturmar junto ao mosaico de tendências do PT — ela, que ainda curte uma lembrança nostálgica da militância brizolista no PDT. Se­ria uma viagem cautelosa pelo universo petista, a ponderar as resistências que encontraria ao longo do percurso.

Perplexo, o PT analisa o impacto de condenações em candidaturas

A propósito de uma incursão pelo petismo, Dilma pode notar a perplexidade do partido com a condenação do deputado João Paulo Cunha, forçado a retirar a candidatura a prefeito na paulista Osasco. Candidatura em que ele e o partido se meteram temerariamente, como se não fizessem caso do julgamento que viria em plena campanha. Acreditaram demais na absolvição, na multiplicação dos votos dos juízes amigos.
A perplexidade de petistas e militantes se apresentou de forma quase dramática no cenário da volta de Cunha a Osasco depois de se retirar da disputa, na noite de quinta. Cunha se reuniu com a turma do PT e depois foi ao encontro com militantes na emblemática quadra do sindicato dos bancários. Chorou ali no ginásio ao discursar. Na saída, militantes agrediram jornalistas e gritavam o nome do ex-candidato. Ali fora, um grupo contrário respondia com ‘ladrão, ladrão!”
Na vizinha São Caetano do Sul, outro petista, Edgar Nó­brega, renunciava no mes­mo dia à candidatura depois da divulgação de vídeo onde foi flagrado, há três anos, ao negociar o apoio do PT à prefeitura, que era do PTB. Nó­brega pedia R$ 600 mil pelo apoio do PT, mais R$ 100 mil para o caixa da campanha. Em São Caetano, dizem que Nóbrega queria um mensalinho.  Os petistas desistiram de lançar outro candidato. Em Osasco, o candidato a vi­ce, Jorge Lapas foi promovido a titular.
Na avaliação dos estragos nacionais, o comando do PT concluiu que as áreas de risco estão no Sul e Sudeste. A prioridade será a proteção do candidato na cidade de São Paulo, Fernando Haddad. Embora confiem no passado de Haddad sem processos judiciais, os petistas temem investidas tucanas por conta do mensalão. O bilhete mensal para o ônibus urbano que Haddad pensa em criar, por exemplo, está sendo chamado de “bilhete mensaleiro” pelos tucanos.

Mensalão ofuscou denúncia sobre a presidente na CPMI

Leve-se em conta o ostracismo da Comissão de Ética mais a interrupção da faxina na Es­planada dos Ministérios. Com­pare-se a pausa do Planalto na moralização da máquina pública com a chama purificadora que se irradia do Supremo. Chama da qual a presidente aparenta desejar distância. No entanto, Dilma, que despacha na Praça dos Três Poderes, ali em frente ao tribunal, poderia agradecer aos vizinhos por ofuscarem a CPI do Cachoeira.
Na mesma praça, com o Pla­nalto de um lado e o Supremo do outro, o Congresso deveria movimentar a CPI, na concepção do PT de Lula, como uma máquina de investigação sobre a oposição A investigação deveria empanar o julgamento do mensalão, mas hoje ocorre o inverso. Depois de muito vacilar, os governistas abriram a porta da CPI, na terça, ao depoimento de Luiz Antonio Pagot, ex-diretor do Depar­ta­mento Nacional de Infra­es­tru­tura de Transportes (Dnit), on­de Dilma detonou faxina em julho do ano passado.
A insistência de Pagot em depor na CPI levou o PT, en­fim, a pensar que poderia retirar dele denúncias sobre o PSDB, coisas que pudessem ser úteis agora na campanha. Mas o que se ouviu foi o ex-diretor revelar que, ali no Dnit, captou pelo me­nos R$ 5,5 milhões para a candidatura presidencial de Dilma em 2010. Dinheiro que veio de, no mínimo, 30 empresas que tinham contratos com o Mi­nistério dos Transportes.
Colaboração que o tesoureiro da candidata do PT, José de Filippi Junior, pediu ao Dnit e Pagot. Por sorte de Dilma e do PT a trepidação do mensalão no tribunal deixou a denúncia do ex-diretor sem maior espaço na mídia. O mensalão a ofuscou. Não funcionou a lógica de Lula, que desejou ofuscamento ao contrário. É verdade que o ma­rasmo em que vinha a CPI ajudou a desacreditá-la. Impôs-se o mensalão.

Denúncia era “conversa de bêbado”

O que o PT queria ouvir de Pagot era algo comprometedor contra o tucano José Serra, que disputa a Prefeitura de São Paulo com o petista Fernando Haddad, mas o ex-diretor não entregou. Pagot não confirmou a história petista de que, em 2006, Serra, como prefeito de São Paulo, tentou desviar dinheiro da obra do Rodoanel paulistano um aditivo a ser assinado em parceria com o Dnit. Dinheiro que seria investido na campanha de Serra a presidente e de Geraldo Al­ckmin a governador.
“Um conhecido meu me alertou para ter cuidado com aquele aditivo porque, na realidade, ele era para contribuir para as campanhas de Serra e Alckmin”, informou Pa­got. “Mas isso é uma conversa de bêbado, de botequim que não se pode provar”, acrescentou. Também participava da parceria entre a prefeitura e o Dnit o Depar­tamento de Obras Ro­doviárias de São Paulo (Dersa), gerido na época por Paulo Vieira de Sou­za, o Paulo Preto, que foi chamado à CPI para com­prometer Serra.
No dia seguinte a Pa­got, Paulo Preto disse no Congresso que não arrecadou dinheiro de em­presas de obras do Dersa para a campanha presidencial de Serra em 2010. Negou ainda a in­for­ma­ção de tucanos de que teria arrecadado R$ 4 mi­lhões para a candidatura de Serra e fugido com o dinheiro. Paulo Preto, na verdade, desapontou os petistas porque não foi o “homem bomba” que esperavam.

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