segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

O EMBAIXADOR DE ISRAEL RECUSADO



De Aranha a Dilma

por Ronaldo Gomlevsky

Houve um dia em que o Brasil forneceu um presidente à Assembleia Geral das Nações Unidas, três anos após o desfecho da Segunda Guerra Mundial. O ano que corria era 1947, o dia era 29 de novembro, e a decisão obtida em votação partilhou a terra chamada de Palestina pelo Império Romano, cerca de dois mil anos passados daquela data, em dois estados. Um judeu e outro árabe. Oswaldo Aranha foi o presidente daquela sessão e, até hoje, é homenageado por judeus ao redor do mundo, e por israelenses no próprio Estado Judeu que Aranha ajudou a criar.
O tempo passou, e as relações entre Brasil e Israel, por todos os motivos, sempre foram saudáveis, do ponto de vista político e comercial.
Um dia, durante a ditadura militar, chega ao poder no Brasil, um general de origem alemã, que sabidamente não era fã de judeus, para não dizer que era, sim senhor, um antissemita de carteirinha. Tinha este mandante, em seu ministério, na condição de Ministro de Relações Exteriores, um tal de Azeredo da Silveira que, no transcorrer do ano de 1975, envergonhou os brasileiros de bem, ao levantar seu dedo indicador a favor, em vergonhosa votação da ONU, que considerou Sionismo como racismo.
Sionismo é o movimento de libertação nacional judeu que normalizou o comportamento do povo de Israel, criando seu Estado, e fazendo voltar a valer a sua forma natural de vida, inclusive deixando de lado a ideia de sempre baixar a cabeça, disseminada pelos líderes religiosos hebreus, após a dispersão e o massacre de mais de quinhentos mil judeus, assassinados pelo Império Romano, por volta da metade do segundo século da era comum.
No país dos sionistas, Israel, vivem homens, mulheres e crianças, cidadãos israelenses plenos, de todas as etnias, praticantes de todas as religiões, de cores variadas de pele, dentro de um regime democrático onde todos os direitos humanos são respeitados.
E os palestinos?! Alguns certamente questionarão!
Ah, os palestinos? Respondo eu: esta questão é um assunto de guerra. Vale a pena ler sobre o assunto. Guerra dos árabes contra os judeus, já há quase cem anos. Questão política que precisa ser resolvida, na qual dos dois lados, nem só há algozes, nem só vítimas. Guerra é guerra, enquanto dura. Assim como o amor, vale enquanto existe.
O tempo foi passando, o Brasil se democratizou, os governos se sucederam e chegou a vez de Dilma Rousseff.
A atual presidente do Brasil (mal assessorada em assuntos de política externa por Celso Amorim, e ainda pior, por Marco Aurélio Garcia, este, pego em flagrante por uma câmera de TV, desavisadamente ligada, quando se dirigia a seus desafetos, ao realizar o famoso gesto "TOP TOP", com uma mão espalmada sobre a outra, na qual dois dedos, o polegar e o indicador se transformam em buraco) resolveu encrespar e enrolar as relações entre Brasil e Israel.
Primeiro tomou partido no conflito do Oriente Médio, em nome dos brasileiros, sem nos consultar, chamando de volta o embaixador patrício em Tel Aviv, gerando o episódio do "anão diplomático". Acusava, naquele "entonces" Israel de desproporcionalidade em suas reações contra o Hamas em Gaza, após mais de oito mil foguetes lançados daquela região sobre a cidadania israelense, sem que houvesse sequer um mísero pronunciamento oficial brasileiro contra aquele continuado crime. Este comportamento faz parecer que israelense pode ser vítima de bala e foguete. Palestino, não. Fica claro, sem qualquer motivo real, que palestino deve ser tratado diferente de israelense.
Não satisfeitos, "Top Top e presidenta", ele através do discurso dela na ONU, mais a frente, demonstrando absoluta falta de ligação com a realidade, sugeriram paciência e diálogo com o Estado Islâmico. Para quem não liga o nome à pessoa, Estado Islâmico vem a ser nada mais do que o ninho dos terroristas fundamentalistas maometanos sunitas que cortam as cabeças de quem não pensa e não age como quer o novo Califa Abu Bakr.
Parece piada de brasileiro. E, é piada!
Agora vem o melhor. A cereja do bolo. Dilma se recusa a dar o "de acordo" para que Dani Dayan assuma a posição de embaixador do Estado Judeu no Brasil.
Quem é Dani Dayan? Empresário bem sucedido, ex major do Exército de Defesa de Israel, líder político daqueles que adotam a ideia de que a Samaria e a Judeia são parte indissolúvel da Terra prometida e, portanto, querem lá viver, aliás, tese com a qual não concordo e, por fim, antagonista à posição que elege para o término daquele conflito, dois estados para dois povos. O homem é contra a criação do Estado palestino. E daí? Também discordo. Todos podemos discordar, mas é a posição dele! Desde quando o Brasil pretende proibir alguém de pensar? Essa para mim é nova!
Se Dani Dayan é criminoso, quais foram os seus crimes?
Que venham, se as houver, claras as acusações ao homem, e que lhe seja dado amplo direito de defesa. Caso contrário, ficará mais uma vez patente a vergonha do erro.
Não dá para entender um veto com o tipo de argumento que está sendo utilizado.
Fico pensando, como pode uma nação escolher onde é a capital de uma outra?! A embaixada do Brasil fica localizada em Tel Aviv e não em Jerusalém, capital de Israel. Vamos imaginar que a Argentina resolva ter sua embaixada, não em Brasília, mas no Acre. Que tal?
Como pode um país querer escolher o embaixador de um outro?
A presidente se recusa a aceitar, de forma inédita, quem foi indicado para representar Israel, por aqui.
O que está em jogo?
Se o Brasil pretende ajudar na solução do conflito do Oriente Médio, ao invés de tomar, constantemente, atitudes que mostram desagrado apenas com um lado, que seja então imparcial, e trate de mediar de verdade aquela guerra, e entre de sola sobre todas as forças em confronto. Vale lembrar que o preço do petróleo despenca a cada dia.
Dani Dayan, até que se prove o contrário, não é criminoso, não explode bares, nem esfaqueia cidadãos civis, não bebe sangue de criancinhas, e nem é estuprador de menores. Muito menos apedreja mulheres como é o caso de muitas sociedades cujos países tem seus representantes em Brasília, aceitos sem qualquer contestação.
Para quem preza o direito de que os seres humanos devam pensar livremente e agir sem tutela, a ação ou omissão do nosso governo contra Dayan não é recomendável. Erra de forma grosseira e desrespeita um país amigo, além de malversar o comportamento nacional que não é de forma alguma, e nunca foi, assim desrespeitoso com os amigos.
Outra coisa, quanto aos judeus brasileiros que assinam carta contra Dayan, digo-lhes: coitados de vocês. Atacam Israel e seus políticos de direita, mas dentro dos partidos que recebem seu apoio, os judeus de esquerda precisam se defender dos antissemitas avermelhados. Vamos nos lembrar que a história do povo de Israel já produziu hebreus adoradores de bezerro de ouro, judeus generais romanos, falsos messias e, até gente que se aliou aos nazistas para, nos guetos e nos campos de morte, tentar salvar o próprio tuches (bunda em iídische). Também produz em penca, já há mais de cinco mil anos, gente pouco inteligente. Faz parte. Afinal, somos apenas um povo como outro qualquer!
Aos judeus brasileiros que assinam carta a favor de Dayan, digo-lhes: estão perdendo seu tempo. Essa atitude do atual governo brasileiro é ideológica, alinhada com a esquerda mundial. Com a Venezuela, Cuba, Evo Morales. Contra o governo israelense do Likud. Pretexto para rolo.
Enfim, diante de tantos equívocos que o governo da Dilma comete, este é mais um, dos muitos mais que ainda ocorrerão.
Não nos esqueçamos que ainda há três longos anos pela frente.
Muita mandioca ainda será descascada, a roda certamente será reinventada, e o vento sem dúvida alguma encontrará um morada bem confortável.
Realmente, para você, meu leitor, raciocinar.
Em tempo de Jogos Olímpicos Cariocas, decreta o governo brasileiro que mais valem "turistas" entrando no país, vindos de regiões conflagradas e com possíveis largas expertises em explosões públicas, sem necessidade de visto, do que oferecer a um embaixador de um país ainda amigo, com profissão, endereço e função definidos, o "de acordo" necessário para que o "perigoso que pensa diferente" possa representar sua nação em solo tupiniquim.
É com este barulho que vamos ter que dormir. E, o pior, ter que acordar no dia seguinte.

*Originalmente publicado no Portal Menorah