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Para Monica De Bolle, risco de Temer é ser tão conciliador, que nenhuma reforma relevante seja feita
Por Márcio Juliboni (O Antagonista)
A economista Monica De Bolle não está nem um pouco otimista com a
efetivação de Temer como presidente. Não, não é porque ela é uma petista
aguerrida.
Pesquisadora do Peterson Institute for International Economics e
professora adjunta da John Hopkins University, De Bolle está preocupada
com dois pontos. O primeiro é o estilo conciliador de Temer, que pode
torná-lo refém de um Congresso ávido por barganhas políticas, no momento
em que o Brasil mais precisa de reformas duras, mas vitais, para o
futuro.
O segundo é o excesso de otimismo da equipe econômica liderada por
Meirelles. Segundo ela, o ministro da Fazenda pode cometer o mesmo erro
de seus antecessores: sustentar suas propostas sempre com base no melhor
cenário, e ver seu esforço evaporar diante da realidade de números mais
fracos. Confira, a seguir, os principais trechos da conversa com O
Financista:
O Financista: Em seu cenário, qual é a probabilidade de Temer ser bem-sucedido?
Monica De Bolle:
Considero a probabilidade relativamente baixa, por certo menor do que
30%. As pressões que deverá enfrentar, as demonstrações que já deu de
não ser um "político de confronto", mas de consenso, e as duras medidas
econômicas conspiram contra o sucesso. O que seria o sucesso? A meu ver,
seria emplacar reformas que mudem a perspectiva fiscal de médio prazo,
criando o ambiente de maior confiança para que os investimentos voltem
aos poucos. O plano de privatização a ser anunciado depende bastante
dessas reformas: caso não venham, as chances de os investidores terem
apetite para comprar ativos públicos ou participar de concessões são
reduzidas.
O
Financista: O primeiro grande teste de Temer será a aprovação da PEC do
teto de gastos. Ela realmente ajudará no ajuste fiscal?
De Bolle:
É difícil saber. Caso os gastos com saúde e educação sejam realmente
excluídos, esvazia-se muito a capacidade de o teto ter a força
restritiva que precisa ter para fazer alguma diferença. Além disso, há
que se ver como serão tratados os mecanismos de indexação que hoje
reajustam despesas em várias áreas e limitam a execução do orçamento.
Trata-se de uma discussão complicada em ambiente ainda muito carregado,
por envolver perdas para a população e a percepção de que o governo está
retirando algo sem garantir a melhoria de nada, ao menos no futuro
imediato.
O
Financista: Meirelles anunciou, ontem, o projeto orçamentário de 2017.
Sua premissa básica é que a economia crescerá 1,6% e, por isso, a
recuperação de receitas dispensará o aumento de impostos. Você concorda
com essa premissa?
De Bolle:
Em uma palavra? Não. Acho que Meirelles periga cometer os mesmos erros
que equipes anteriores cometeram: jogar a projeção de crescimento para
cima, esperando que o melhor cenário se materialize e ajude a
concretizar a meta fiscal. Caso algo dê errado, as chances de que a meta
não seja cumprida estão diretamente atreladas ao otimismo excessivo em
relação ao crescimento da economia. De onde virá tal crescimento? Do
consumo, abalado pela alta do desemprego e pela queda da renda? Do
investimento, cuja recuperação está longe de garantida? Do setor externo
e de nossos produtos pouco competitivos?
O Financista: Você sente que os estrangeiros estão interessados no Brasil?
De Bolle:
Já estiveram mais interessados há alguns meses, quando o governo
interino se formou. Hoje, creio que muitos enxergam as mesmas
dificuldades que eu. Os mais atentos conseguem ver, inclusive, os riscos
de ordem institucional colocados à mostra com o estranho resultado do
impeachment -- um veredito de crime sem punição. Isso põe em xeque a
percepção de segurança jurídica do país.
O Financista: No cenário mais realista que você pode traçar, o que será, de fato, o governo Temer, na área econômica?
De Bolle:
Acho que emplacará um plano de privatizações que trará algum
investimento, e, possivelmente, aprovará reformas muito diluídas, com
pouco impacto sobre o problema de médio prazo das contas públicas. Tal
cenário é condizente com um crescimento na faixa dos 0,5% projetados
pelo FMI no ano que vem, e vários pontos de interrogação em 2018, quando
estaremos em pleno processo eleitoral marcado pelas cicatrizes e
feridas abertas do impeachment e da Lava Jato.
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