“A noite é uma criança, a madrugada um
brinquedo. Não sou eu que durmo tarde, é o sol que nasce cedo.”
(Boêmio desconhecido)
São onze e meia de uma noite
chuvosa, em uma Belém que adormeceu mais cedo. Os ônibus começam a ficar
escassos e, são poucas as pessoas que se aventuram pelas ruas desertas e
sombrias.
Entre essas
poucas pessoas, eu, a seguir um exército de miseráveis. Meninos e meninas de
rua, ébrios jogados pelas sarjetas e mendigos a suplicar uma moeda.
Cenário dantesco
e muitas vezes fantasmagórico. É como se pudesse encontrar pelas ruas da Cidade
Velha, Caldeira Castelo Branco, ou ouvisse os gemidos dos portugueses que
tombaram pelas mãos dos cabanos aos pés do altar da Igreja do Carmo.
A Baia do
Guajará, com suas águas cálidas, parece me observar, enquanto atravesso no meio
do burburinho do Vêr-o-Pêso, coração de uma Belém, que palpita forte nas
madrugadas, embalado pelos barcos vindos
“das bandas de lá”.
Continuo minha
solitária caminhada, pelos mesmos caminhos dos romeiros de Nazaré. Subo pela
pomposa presidente Vargas, antes 15 de agosto, e vejo aproximar-se o Largo da
Pólvora, hoje praça da República. República dos roqueiros, com suas vestes
pretas e baseando suas idéias anarquistas no “baseado” que livremente consomem
em seu território, que também abriga os “cheira-cola”, os hippes, os “ploc”, ou garotos de programa, o velho Bar
do Parque, com seus garçons, mais velhos que a própria praça e, os nostálgicos
que se abrigam na banca do Alvino, onde podem ler os jornais dos sul, sem
gastar um conto de réis.
E lá vou eu, a
subir pela estrada de Nazaré, que os modernistas teimam em chamar de avenida,
ao encontro dos coretos, das samaumeiras, do arraial e do igarapé que passa
atrás da Basílica e prossegue pelo “tubo da 14”.
A Basílica
ainda está lá. O quartel do 26º BC, onde à sua frente tombou o bravo tenente
Castilho França, também. Só não vi os coretos, que segundo comenta-se no
bairro, foram passear na França e de lá não mais voltaram. O Igarapé, que ficava
no quintal do casarão de tradicional família, na 14 de março com Independência,
virou território do Bush, que deve estar procurando armas químicas e biológicas
entre os sanduíches da Mac Donald’s, que envenenam a nossa cultura alimentar.
Quer um exemplo, “Big-Mac“ no lugar da nossa “tapioquinha”, ou do tradicional
“cachorro quente”, feito com picadinho (carne moída é coisa de sulista), que se
come com muito molho de pimenta de cheiro
no tucupi, no carro do Toninho, “o Paraense”, único combatente cabano a
enfrentar de cara, lá na esquina mesmo, o invasor yankee.
O carrilhão
toca com maestria o “Vos sois o lírio mimoso”, e as portas quase seculares da
Basílica se abrem. É um novo dia, e o
Largo de Nazaré, agora praça Santuário, acorda com o revoar de centenas de
periquitos.
A Missa está
para começar, e eu, cansado da minha peregrinação, cantarolo a velha canção do Mosaico de Ravena, “Vão destruir o
Vêr-o-Pêso...”.
MÁRIO, que é SÉRGIO e, também é
FRANCO
Belém do Pará, 27/04/04.

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