Por Márcio Juliboni
Passado
o susto com a decisão dos britânicos de deixar a União Europeia, o
dólar voltou a recuar em relação ao real. O movimento foi reforçado pela
sensação dos investidores de que a nova diretoria do Banco Central não
iria mesmo intervir na taxa de câmbio. Mas o cenário mudou após o BC vir
a campo na sexta-feira (1), realizando a primeira intervenção no
mercado de câmbio desde 18 de maio.
O
movimento de alta da moeda norte-americana ganhou força ao longo do
dia, após as declarações do presidente do BC, Ilan Goldfajn, de que
estão abertas as condições, no Brasil e no exterior, para reduzir os
estoques de swaps cambiais. Goldfajn reafirmou, contudo, seu compromisso
com o regime de câmbio flutuante. Pelo sim, pelo não, o movimento foi
interpretado pelo mercado como o estabelecimento de um novo piso para o
dólar: R$ 3,20.
Para o
embaixador Rubens Barbosa, presidente do conselho superior de comércio
exterior da Fiesp, a reação do BC é bem-vinda e necessária. Ele lembra
ainda que a indústria defendia a medida havia tempos. Embora o câmbio
flutuante faça parte do tripé macroeconômico que sustentou a
estabilização do país desde o Plano Real, é temerário segui-lo ao pé da
risca. “Nenhum país do mundo tem um câmbio totalmente flutuante, livre,
hoje em dia”, afirma Barbosa a O Financista. “Todos os países administram suas taxas: Estados Unidos, China...”. Leia a seguir os principais trechos da conversa:
O Financista: Como o senhor avalia a intervenção do BC nessa sexta-feira?
Rubens Barbosa:
Ela foi muito importante. Foi positiva e bem-vinda, porque a indústria já pedia, havia tempos, alguma reação do Banco Central.
O
Financista: O mercado interpretou a intervenção como o estabelecimento
de um novo piso de R$ 3,20 para o câmbio. Esse patamar é bom para a
indústria?
Barbosa:
Eu acredito que a intervenção não teve o objetivo de estabelecer um novo
piso. Acho que o BC agiu para mostrar que está atento ao câmbio. Agora,
o novo piso é algo que deve ser discutido mais adiante.
O Financista: Mas seria o caso de manter o câmbio ao redor de R$ 3,50?
Barbosa:
Do ponto de vista dos exportadores, sim. Mas o BC não pode tomar
decisões isoladas do mundo. Agora, se o país não criar condições para
que as exportações voltem a crescer, a balança comercial será
prejudicada. O que estou dizendo é que não se pode pensar na política
macroeconômica desvinculada da política industrial e comercial, algo que
os economistas brasileiros estão acostumados a fazer. Além disso,
nenhum país do mundo tem um câmbio totalmente flutuante, livre, hoje em
dia. Todos os países administram suas taxas: Estados Unidos, China...
O Financista: Para a indústria, é melhor que o BC intervenha no câmbio?
Barbosa:
O BC precisa acompanhar o que ocorre no mundo. Há toda essa
instabilidade recente dos mercados, e o BC tem todo os dados para
avaliar a situação. Agora, do ponto de vista macroeconômico, a queda do
dólar ajuda apenas pontualmente, como no caso da importação de feijão.
Mas manter os juros elevados, em um cenário de inflação convergindo para
a meta e câmbio em queda... Isso cria uma situação delicada para alguns
setores industriais.
O
Financista: Segundo o último boletim Focus, do BC, a expectativa é de
um saldo comercial de US$ 50,76 bilhões neste ano. No atual patamar de
câmbio, esse saldo pode cair?
Barbosa:
Acho que essa projeção foi feita com um câmbio estimado ao redor de R$
3,50. A queda do dólar tem um efeito muito negativo para a indústria.
Como o Custo Brasil é elevado, muitos setores conseguem ser competitivos
na exportação por causa do câmbio. Os empresários com quem converso
dizem que, com a taxa entre R$ 3,50 e R$ 3,70, conseguem uma pequena
margem nas exportações, mas conseguem. Abaixo desse patamar, há um
problema sério, porque a margem acaba. O câmbio não é tudo, mas ajuda.
O Financista: O saldo comercial pode cair, então?
Barbosa:
Os setores que mais se beneficiaram com a alta do dólar, como o têxtil,
calçadista, papel e celulose e máquinas e equipamentos, já estão
sentindo dificuldades. As importações estão caindo, mas o problema é que
as exportações podem crescer num ritmo menor que o atual. Com isso, o
saldo pode desacelerar. Desse jeito, não sei se a projeção poderá ser
mantida.